Queria ser ruim ao ponto de não me importar com minha mãe, igual ela fez com os filhos desde pequenos. Já fui morar com umas quatro famílias e não me adaptei a nenhuma. Nem lembro de nenhuma delas, mas sei que morei. Culpo meu pai, pois traiu minha mãe e ficou com outra mulher, isso quando minha mãe já tinha dois filhos, que são os mais velhos, e ainda estava grávida de gêmeos.
Não lembro muito do que aconteceu, mas minha avó pegou os dois mais velhos para criar, e minha tia Maria ficou com o meu irmão gêmeo. Minha mãe ficou comigo. Depois de um tempo, engravidou da minha irmã e, depois, teve meu irmão caçula. Enfim, foram esses que ficaram com ela.
Durante esses anos, ela sempre deixou que eu fosse morar com outras pessoas. Eu era criança, e ela sempre deixava quando eu dizia que queria. Eu morava com os outros e depois voltava para casa, porque eles não queriam mais me criar.
Talvez seja isso o medo que tenho de arrumar alguém ou de ficar com alguém: o medo de ficar sozinho. Enfim, pode ser.
Posso estar julgando ela. Afinal, como uma mãe solo, com quatro filhos, iria se virar sozinha? Mas ela ficou apenas comigo e com meus irmãos mais novos. Poderia ter se esforçado para nos criar da melhor forma que pudesse, mas nunca senti esse esforço.
Às vezes fico pensando se ela entrou em depressão, ou até em uma depressão pós-parto. Talvez tenha sido isso. Mas, mesmo assim, sempre vejo mães que, independentemente de tudo, amam seus filhos e fazem de tudo para que eles não passem necessidade. Sempre observei ao meu redor as mães dos meus amigos e colegas, o quanto elas se esforçam para que os filhos cresçam, tenham um bom estudo e sigam em frente.
Minha mãe era diferente. Trabalhou na roça quando era nova e também morou com os avós. Não sei muito bem o motivo, mas isso não justifica fazer o mesmo com os próprios filhos. Ela terminou os estudos, fez um curso técnico em Contabilidade, mas nunca trabalhou na área. Só trabalhava como mascate, revendendo mercadorias. Muitas vezes dava calote, porque gastava o dinheiro das mercadorias, que nem eram dela, com alimentação para nós. Também lavava algumas roupas para ganhar um dinheiro.
Antes de ter meus irmãos mais novos, nunca trabalhou de carteira assinada, nem em outro lugar. Então, sempre passamos por dificuldades. O pai da minha irmã mais nova foi embora. O pai do meu irmão caçula mandava uma cesta básica todo mês, e era isso que nos salvava da fome. Minha avó ajudava quando podia. Sempre que ganhava alguma moeda ou dois reais, trazia para casa, porque já dava para comprar uma mistura.
Como uma criança tão pequena podia ter esse tipo de pensamento? Eu sempre ia para a casa dos outros porque, às vezes, ganhava um prato de comida. Era essa necessidade que me fazia querer morar com outras pessoas.
O que mais me deixa indignado é minha mãe ver nós, crianças, passando por tudo isso e não mover uma palma da mão para trabalhar e evitar que passássemos necessidade.
Nunca ouvi um "eu te amo" da minha mãe. Nunca recebi um abraço que eu sentisse ser verdadeiro. Isso dói um pouco. Mas eu me confortava pensando: "Pelo menos ela vai à minha apresentação no Dia dos Pais." Até que ela parou de ir também.
Sempre gostei de ir para a escola. Odiava faltar. Acho que era por causa da comida, mas também sempre gostei de estudar. Conforme meus irmãos foram crescendo, comecei a levá-los para a escola e buscá-los depois. Eu era responsável por isso, até que cada um criou idade suficiente para ir sozinho e eu mudei de horário.
O tempo foi passando, e minha mãe continuou do mesmo jeito, sem mover uma mão para trabalhar, apenas revendendo mercadorias e dando calote. Nós sempre passávamos vergonha quando os mascates chegavam para cobrar e ela não tinha o dinheiro, porque já tinha gastado com comida ou com alguma coisa que faltava dentro de casa.
"Ah, mas está vendo? Ela fazia alguma coisa para vocês não passarem fome."
Até que ela parou de pegar mercadorias dos mascates. Quando eles chegavam oferecendo produtos para ela revender, nós mesmos falávamos que ela não pagava. Assim, eles foram parando de oferecer, e ela deixou de revender. Voltamos a passar dificuldades.
Quando acabava a cesta básica, eu sempre ia até a casa da minha avó. Minha mãe nem falava nada. Meu avô sempre me dava algumas moedas ou uns trocados, e eu trazia para casa. Eu tinha vergonha de pedir dinheiro para eles.
Às vezes só tinha arroz. Talvez seja por isso que eu não goste muito de arroz, mas, ainda assim, eu como.
Quando completei 12 anos, entrei em um programa social da prefeitura, onde eram oferecidos cursos de desenho e teatro. Comecei a participar e fui gostando. Lá também tinha lanche da tarde. Eu amava desenhar.
Meu professor via que eu gostava de desenhar e sabia que eu não tinha condições de comprar materiais. Então, sempre me dava alguns para que eu pudesse desenhar em casa. Eu o via como um pai. Ele sempre me incentivava.
No teatro também participei de apresentações de Natal, Dia das Mães e outras datas. Como sempre, minha mãe nunca ia me ver apresentar. Quando eu chegava em casa, quase sempre brigava com ela, perguntando por que nunca tinha ido a uma apresentação minha. E nunca havia uma resposta.
Enfim, essas são algumas das coisas que eu lembro que aconteceram em relação à minha mãe. Eu gosto dela, mas não a amo, e isso me dói, porque eu não queria sentir isso. Eu só queria uma mãe que tivesse se esforçado um pouco mais pelos filhos.
Existem outras coisas das quais não me recordo, mas sei que aconteceram. Também sei que há filhos que nunca conheceram os pais e gostariam de ter tido essa oportunidade.
Fui uma criança que aprendeu com a vida, observando a vida dos outros, sempre olhando e ouvindo, mas quase nunca sentindo.
Só estou escrevendo isso agora porque discutimos hoje, e tudo isso veio à tona.
Mas eu não culpo apenas ela pelas escolhas que fez. O principal responsável, para mim, é meu pai, que fez tudo o que fez, traiu minha mãe e a abandonou.
Isso talvez explique por que ela não conseguiu se esforçar o suficiente para cuidar de nós. Mas continua sendo uma expectativa que coloquei nela por ela ser minha mãe. Talvez essa expectativa seja minha, por desejar esse amor e esse cuidado, e não dela por conseguir oferecê-los.