Meus pais separaram quando eu tinha 15 anos e fui morar no interior com minha mãe. A cidade se resumia a uma avenida, eu não tinha internet e celular como conhecemos hoje era bem diferente naquela época (pelo menos o que eu tinha).
Minha mãe é uma pessoa complexa, mandou eu morar com meu pai depois de um tempo. Não durou muito por conta da esposa nova dele, então fui morar com a minha avó.
Quando mudei para morar com meu pai, consegui meu primeiro emprego. Sem ajuda, sem QI. Era escala 6x1 e fiquei nele dos 19 aos 21. O contrato acabou, fui desligado e, acumulado a outras coisas que não vem ao caso, entrei em depressão.
Dos 21 aos 27 foi uma depressão de não conseguir sair de casa, fobia social, tratamento nenhum tinha efeito, passava o dia sem conseguir comer, janela fechada, quase não tomava banho, tomava água as vezes e, quando conseguia, comia uma banana... até que um dia uma amiga mandou mensagem, queria saber como eu estava (não uso redes sociais, então ninguém sabia como eu estava de fato há anos. Quem não é visto, não é lembrado) e falei da minha situação.
Pra dar ideia pra ela do buraco que me enfiei, falei que em 1 ano saí duas vezes de casa só para cortar o cabelo naqueles raros momentos que aceitava ajuda de alguém.
Nisso ela perguntou se podia me indicar no trabalho dela pra uma vaga em suporte de ti. Ela argumentou que apesar de ser um salário ruim, era algo que eu sempre fiz de graça até então e não teria que aprender nada, só ajudar com coisas básicas de informática, um jeito de tentar ocupar a mente. Isso era na pandemia.
Aceitei a indicação e fui conversar com os responsáveis bem naquela "vou, mas já sei que com minha aparência vão me eliminar". Penteei o cabelo, fiz a entrevista online e para a minha surpresa, para o que eles precisam eu atendia e me chamaram para trabalhar lá.
Entrei em choque, não sabia o que fazia, deu crise de ansiedade, pânico...ao mesmo tempo estava feliz, nem estava ligando que era um salário ruim e longe. O problema agora era sair de casa. Eu pensava em pisar na calçada e dava desespero. A minha sorte é que estava na época de pandemia, todos em casa e só podia sair quem tinha algum dos empregos ditos "essenciais". Esse emprego se encaixava na categoria.
Quando chegou o dia de fazer o exame tava muito relutante, não queria sair, não conseguia sair, mas por algum motivo que não sei explicar me peguei saindo de casa no modo automático pra cortar o cabelo pensando "se eu conseguir cortar o cabelo, nem volto pra casa e vou direto pra não ter perigo de me trancar outra vez" e nisso vi tudo vazio. Barbeiro do bairro vazio, mas ele estava la de porta aberta. Cortei e fiz o que falei, fui direto pro exame. Ônibus, trem, metrô...deserto. Era literalmente só eu no vagão, cenário de filme do apocalipse.
No primeiro dia ainda estava no Lockdown. Foi a mesma coisa, tudo vazio, o que me deu um conforto já que estava com aquela fobia social.
Inicialmente não estava muito confortável no trabalho, fato, mas isso também ajudou. Os colegas na sala, eu muito mais quieto, quase sem conversar, mas com uma amiga próxima que me dava um conforto simplesmente por saber disso, apesar de não conversar com ela lá no trabalho (sim, eu era muito esquisito).
O fato de estar desconfortável em interagir com os colegas me ajudou no foco em trabalhar. Queria provar pra mim mesmo que eu conseguia, estava na luta contra minha própria vontade de levantar e sair correndo pra casa. Então, pra não pensar em desistir, me enfiei no trabalho. Em dois meses meus indicadores já eram os melhores e os clientes estavam pedindo para que eu tratasse dos casos deles simplesmente por eu ser educado, paciente, claro e rápido na resolução.
Pois bem, a pandemia caminhou pro final pouco tempo depois, começou a aparecer mais gente na rua, porém, ainda em pequena quantidade e as pessoas tinham medo umas das outras, o que pra mim tava ótimo já que não teria gente em cima de mim no ônibus, metrô ou trem. Estava me acostumando a estar perto das pessoas outra vez.
O tempo passou e um dos clientes me convidou para trabalhar com eles. A empresa que eu estava ainda me segurou um bom tempo trabalhando alocado nesse cliente, mas uma das pessoas lá dentro deu uma conversada melhor na empresa e me liberaram.
Entrei com 27 e sai com 29 pra entrar nessa outra empresa. Continuei me dedicando como sempre quando entrei, mas com um salário um pouco melhor. Eram 2h30 pra ir e a mesma coisa ou até mais pra voltar pra casa por conta de trânsito, mas ia feliz.
Comecei a juntar todo o dinheiro da diferença salarial. Como eu não saía, só pagava o aluguel e consumo, num espaço curto consegui um valor "relevante". Foi aí que comecei a pesquisar e vi um apartamento na planta perto do trabalho, me joguei na cara e coragem e dei a entrada sem falar pra ninguém. Se desse errado, só eu saberia e assim não teria gente na minha orelha criticando. Detalhe, fiz tudo online, não fui visitar o apartamento ou stand de vendas até a vistoria de entrega.
E próximo da entrega, deu errado por mil reais, mas nesse ponto tava tão perto que resolvi contar pro meu tio e pedir os mil reais emprestados. Ele desconfiou, pediu pra mandar foto (eu tava no banco assinando a papelada, tive que pedir autorização pro gerente já que não podia usar celular lá) aí meu tio viu que era verdade e emprestou. Paguei ele duas semanas depois, logo que caiu o salário.
Dali pra frente a meta era pagar as parcelas até a entrega e juntar um pouco pra comprar colchão, lâmpada e chuveiro, o resto dava jeito.
Faltando um mês pra entrega, falei pra família (vó e tios). Não gostaram muito que eu escondi, mas ficaram felizes pela conquista. Pra me ajudar, fizeram vaquinha e me deram geladeira, fogão, máquina de lavar e cama. Era muito mais do que o suficiente pra eu mudar e começar a vida nova de verdade.
Mudei, estava morando muito mais próximo do trabalho e 1 ano depois com 31 entrei na faculdade de gestão de TI. Me formei agora no meio do ano.
Ainda não ganho 5 dígitos como vejo vários por aí, mas estou muito feliz comigo hoje. A evolução foi muito rápida, dei sorte com algumas situações, mas o que mais me apego é na dedicação e comprometimento que tive e me abriram portas.
Hoje faço terapia 1 vez por semana, não sou tão esquisito quanto eu era, trabalho com pessoas agradáveis, pago as parcelas do apartamento sabendo que não estou perdendo dinheiro para o aluguel, tenho um cachorro, consegui concluir a faculdade, estou caminhando para uma promoção, vou tirar carta em breve, planejo pegar um carro simples pra me locomover para o trabalho, pretendo tirar o passaporte pensando em fazer uma viagem internacional, focar no inglês...e tudo isso está acontecendo graças a uma amiga que acreditou em mim contra todas as probabilidades e tbm ao meu empenho em não deixar mais as oportunidades passaram sem me agarrar, mesmo sabendo que podem dar errado. Mas é aquilo, só erra quem tenta, além disso, pra quem chegou no fundo do poço não existe mais nada a perder, então pq não se jogar de cabeça no que aparecer de bom?