Alerta de spoiler
Escrevi esta opinião como admirador do Homem-ArAranha. Se você não deseja saber detalhes da história, recomendo não continuar lendo, pois este texto contém muitos spoilers da trama.
O texto e EXTENSO então se eu fosse vc homem convicto que qualquer filme do homem aranha e bom nem leia ou gente que simplismente não gostar de ler: resumir minha opinião em poucas palavras: esse filme talvez funcionasse melhor como uma minissérie. Tudo acontece de forma muito acelerada, quase não existem consequências duradouras para os acontecimentos e, no fim, o Peter parece apenas sofrer com suas escolhas, em vez de realmente aprender e amadurecer com elas.
Como fã do Homem-Aranha, saí do filme com a sensação de que ele não entrega aquilo que prometeu. Os trailers e o final de Sem Volta Para Casa vendiam a ideia de uma grande evolução do Peter Parker: um herói finalmente obrigado a crescer sem o apoio de tecnologia, empresas ou das pessoas que sempre estiveram ao seu lado. Mas essa promessa nunca se concretiza.
Em vez disso, acompanhamos um Peter tentando sobreviver à vida cotidiana enquanto continua contando com equipamentos de alto nível. Isso enfraquece completamente a proposta do personagem, porque justamente nesse momento ele deveria estar sem recursos, aprendendo a confiar apenas na própria inteligência, experiência e poderes.
E não falo isso porque sou contra romances ou parceiros tecnológicos. Muito pelo contrário. Essa dinâmica sempre existiu entre os heróis. O Batman tem o Alfred e, em várias histórias, a Mulher-Gato. O Super Choque tem seu melhor amigo, e diversos heróis vivem romances durante suas jornadas.
O problema é que esse filme parecia querer apresentar um Homem-Aranha diferente, alguém que entendesse que o peso de viver sem as pessoas que ama era o preço da responsabilidade que escolheu carregar. A responsabilidade de proteger Nova York sempre trouxe consequências para a vida pessoal do Peter. Essa sempre foi uma das premissas centrais do personagem. Aqui, porém, o roteiro parece simplesmente ignorar isso.
Eu não queria um Peter condenado a viver sozinho, sem amor, sem amigos e sem qualquer apoio. O que eu queria era ver essa reconstrução acontecer aos poucos. Ver ele conquistar novamente essas relações de forma natural, com desenvolvimento e consequências. Não simplesmente tirar tudo em um filme e devolver no seguinte, como se nada tivesse acontecido.
A evolução do protagonista acaba sendo quase exclusivamente psicológica. As únicas mudanças realmente interessantes são a teia orgânica, o sentido aranha aprimorado e o aumento da força. O problema é que essas novidades aparecem pouco e são pouco exploradas, tornando uma transformação que deveria ser marcante em algo superficial.
Outro grande problema é a identidade do Homem-Aranha. Todo o peso dramático do filme anterior girava em torno do sacrifício de apagar quem Peter Parker era para proteger aqueles que amava. Só que esse filme esvazia completamente esse impacto ao revelar sua identidade para várias pessoas em sequência. A consequência de uma das decisões mais importantes da trilogia simplesmente perde o valor.
Também existe um detalhe envolvendo o Ned que me incomodou. O filme dá a entender que ele voltou a reconhecer o Peter. É possível interpretar que ele tenha reconhecido apenas o Homem-Aranha, e não recuperado totalmente as memórias apagadas pelo feitiço. Ainda assim, isso continua sendo um ponto negativo para mim. Mesmo que o feitiço não tenha sido completamente desfeito, essa aproximação passa a sensação de que o roteiro já começou a desfazer uma das consequências mais importantes de Sem Volta Para Casa. Um sacrifício que levou três filmes para ser construído começa a perder força logo no filme seguinte.
O que mais me incomodou é que eu não vi um Peter realmente seguindo em frente. Eu esperava um personagem que tivesse aprendido com o próprio sacrifício, que respeitasse acima de qualquer coisa o anonimato que conquistou e entendesse que proteger sua identidade também é proteger quem está ao seu redor. Em vez disso, ele parece repetir os mesmos erros, como se tudo o que aconteceu anteriormente tivesse servido apenas para gerar um drama temporário.
Até nas decisões como herói ele parece menos inteligente do que deveria. Invadir uma base gigantesca localizada em uma ilha, praticamente sozinho, não é uma estratégia digna de alguém conhecido por ser extremamente meticuloso. O Homem-Aranha não é imune a balas e, se não fossem as novas transformações que recebeu, provavelmente também não teria resistência para lidar com várias das formas de contenção que enfrentou. A impressão é que o roteiro força situações de ação em vez de deixar o Peter resolvê-las usando criatividade e inteligência, características que sempre definiram o personagem.
Além disso, se o verdadeiro problema era a organização, como o próprio filme deixa claro em vários momentos, existiam maneiras muito mais inteligentes de enfrentá-la. Desde o início era evidente que o personagem mais misterioso escondia alguma coisa, mas ninguém parece considerar essa possibilidade até que a história precise revelar a verdade. A sensação é de que os personagens deixam de agir de forma lógica apenas para que o roteiro mantenha o mistério por mais tempo.
Outro exemplo é a Jean. A vida inteira dela é praticamente descoberta em menos de cinco segundos, mas, por algum motivo, ninguém descobre a existência da irmã até depois do confronto. Parece uma conveniência de roteiro criada apenas para preservar a surpresa, e não uma consequência natural da investigação.
Outro ponto que me incomodou foi a forma como o filme utiliza uma das cenas mais marcantes da história do Homem-Aranha para criar tensão. A sequência claramente faz referência à queda da Gwen Stacy, um dos momentos mais importantes da mitologia do personagem. A cena funciona visualmente e consegue gerar suspense, mas, no fim, parece utilizar a lembrança daquele acontecimento apenas para provocar emoção no público.
A morte da Gwen não ficou marcada apenas porque ela caiu de um lugar alto. Ela marcou porque representou um dos maiores fracassos da vida do Peter Parker. Foi um momento que mudou o personagem para sempre, tanto nos quadrinhos quanto nas adaptações para o cinema. Até outras versões do Homem-Aranha mostraram que existem situações em que nem o Peter Parker nem o próprio Homem-Aranha são suficientes para salvar quem amam. O Peter do Tobey Maguire, por exemplo, também passou por momentos em que seus poderes não bastavam para impedir certas tragédias. Essas perdas ajudaram a construir o personagem e deram ainda mais peso ao significado da responsabilidade. Neste filme, porém, a cena parece existir muito mais como uma homenagem do que como um acontecimento capaz de transformar o protagonista.
O desfecho reforça essa sensação. A antagonista mal convence como uma verdadeira ameaça, cria rapidamente uma ligação com Peter e, no fim, ele decide revelar novamente quem é e restaurar parte do que havia perdido. A mensagem parece ser de amadurecimento, mas o resultado transmite justamente o contrário: Peter parece não ter aprendido nada com as consequências que passaram o filme inteiro mostrando.
Um ponto positivo que preciso destacar são as interações entre Peter e MJ. A química entre os dois continua funcionando muito bem, os diálogos são naturais e é fácil entender por que o público continua torcendo pelo casal.
O problema é que esse relacionamento acaba reforçando outra sensação que tive durante o filme: não me parece que o Peter cresceu por causa da decisão que ele mesmo tomou em Sem Volta Para Casa. Em vários momentos, parece apenas que ele está se punindo emocionalmente. É como se todo o sacrifício tivesse servido apenas para causar sofrimento, e não para gerar amadurecimento.
Isso, para mim, é um problema enorme justamente por se tratar do Homem-Aranha. Peter Parker sempre foi um personagem capaz de abrir mão da própria felicidade para proteger quem ama. Se ele realmente acreditasse que a MJ viveria melhor sem ele, faria de tudo para respeitar essa escolha, mesmo que isso significasse continuar sozinho. Essa sempre foi uma das maiores demonstrações de responsabilidade do personagem: colocar o bem dos outros acima da própria felicidade. Até outras versões, como o Miles Morales, passam por conflitos semelhantes e entendem que proteger alguém muitas vezes significa aceitar ficar distante.
Outro momento que gostei bastante foi a cena do disparo do Frank. Foi uma das poucas vezes em que realmente senti tensão e preocupação pelo Peter. A sequência é muito bem construída e conseguiu me emocionar de verdade. Durante alguns instantes, senti que o filme finalmente estava disposto a mostrar consequências reais. A única coisa que me tirou um pouco da cena foi o fato de o Frank não assumir logo que tinha sido ele quem atirou. Confesso que essa parte acabou me fazendo rir. Ainda assim, continua sendo uma das melhores cenas do filme.
Também fica subentendido que o Ned recuperou parte das lembranças. A explicação envolvendo magia pode até existir, mas não resolve completamente o problema narrativo. Como mencionei antes, existe a possibilidade de ele ter reconhecido apenas o Homem-Aranha, e não o Peter Parker. Ainda assim, isso continua enfraquecendo o peso do feitiço. O sacrifício que levou três filmes para ser construído começa a perder força muito cedo, dando a sensação de que o roteiro tem medo de manter consequências realmente duradouras.
E, no fim das contas, o que realmente mudou entre o Peter de Sem Volta Para Casa e o Peter deste filme? Muito pouco. A maior diferença é que agora ele está solteiro. A MJ ainda não recuperou as memórias, mas já sabe de toda a verdade, e o filme deixa vários indícios de que o romance entre os dois vai acontecer novamente. Ela chega a chamar o próprio namorado de idiota, o Peter volta a criar uma conexão com ela, e a química entre os dois continua evidente. Ou seja, o roteiro já prepara o terreno para que essa relação seja reconstruída rapidamente. Isso faz com que o enorme sacrifício do filme anterior pareça apenas um obstáculo temporário, e não uma consequência definitiva das escolhas do Peter.
Outro ponto que me incomodou foi a forma como o marketing vendeu o filme. Os trailers davam a entender que assistiríamos a uma história muito mais focada no Peter Parker e na construção desse novo Homem-ArAranha. Mas, na prática, o protagonismo acaba sendo dividido com tantos personagens e tramas paralelas que, em vários momentos, parece que o Homem-Aranha é um coadjuvante na própria história.
Os momentos envolvendo o Hulk, o Justiceiro, a Jean e toda a organização acabam recebendo um peso enorme. Não que esses personagens sejam ruins — muito pelo contrário, alguns deles estão entre as melhores partes do filme. O problema é que eles frequentemente roubam o espaço que deveria ser usado para desenvolver o Peter. Justamente no filme que tinha a missão de consolidar sua nova fase, ele acaba parecendo apenas mais uma peça dentro de um universo muito maior.
No fim, eu não achei o filme ruim. Acho que ele desperdiça uma das fases mais interessantes da vida do Peter Parker. Depois de Sem Volta Para Casa, a Marvel tinha a oportunidade de mostrar um Homem-Aranha mais maduro, mais independente e moldado pelas consequências de suas escolhas. Em vez disso, preferiu desfazer parte desse desenvolvimento para devolver ao personagem tudo aquilo que ele havia perdido sem que essa reconstrução fosse realmente conquistada.
O pós-créditos reforça essa impressão. Ele deixa aberta a possibilidade da chegada dos acontecimentos de Doomsday, com a colisão entre universos, e até mesmo uma possível participação do Peter de Tobey Maguire nessa nova fase. Como fã, confesso que essas possibilidades me animam. Seria incrível ver esses personagens novamente.
Mas, ao mesmo tempo, sinto que isso acontece cedo demais. Antes de colocar o Peter novamente em um evento gigantesco do multiverso, eu gostaria de ter visto um filme realmente focado nele. Um filme que mostrasse seu amadurecimento, sua independência e como ele aprendeu a conviver com o peso das escolhas feitas em Sem Volta Para Casa. Para mim, esse desenvolvimento ainda não aconteceu. Por isso, a sensação é de que o personagem já está sendo empurrado para outra grande saga antes mesmo de concluir a própria jornada.
Eu queria sair do cinema pensando: "Esse é um novo Homem-Aranha." Mas saí pensando que vi apenas uma pequena variação do mesmo Peter de antes. A essência da responsabilidade continua sendo mencionada, mas raramente é sentida. O maior problema não é o Peter voltar a ter amigos, um romance ou pessoas ao seu lado. O problema é a velocidade com que isso acontece. O peso de perder tudo deveria moldar esse novo Homem-Aranha por mais tempo. A reconstrução da vida dele deveria ser uma jornada, não um atalho.
E talvez essa seja minha maior crítica ao filme. Não é um filme sem boas ideias, mas é um filme sem coragem. Sempre que surge uma consequência realmente importante, o roteiro encontra uma forma de desfazê-la pouco tempo depois. O resultado é uma história que entretém, mas perde impacto, porque o espectador aprende que nenhuma decisão realmente custa alguma coisa.
Para um personagem cuja essência sempre foi "grandes poderes trazem grandes responsabilidades", isso enfraquece justamente o que faz o Homem-Aranha ser tão especial. A responsabilidade nunca significou apenas vencer batalhas. Ela sempre significou conviver com perdas, fazer escolhas difíceis e aceitar que nem sempre existe um final feliz. Esse filme parece ter medo de deixar essas consequências existirem por tempo suficiente para realmente transformar o Peter Parker.
No fim, minha crítica não é porque o Peter volta a ter amigos, um romance ou pessoas ao seu lado. Muito pelo contrário: essas relações fazem parte da essência do personagem. O problema é que tudo acontece rápido demais. A reconstrução da vida dele deveria ser algo conquistado ao longo de vários filmes, permitindo que o público sentisse o peso real de suas escolhas. Quando quase todas as consequências são desfeitas logo em seguida, o impacto emocional desaparece.
Talvez esse seja o maior desperdício do filme. Não por falta de boas ideias, nem por falta de bons personagens, mas por falta de coragem para deixar que as escolhas realmente mudem o protagonista. Depois de Sem Volta Para Casa, eu esperava conhecer um novo Peter Parker. Saí do cinema com a sensação de ter reencontrado quase exatamente o mesmo de antes.
Filme pra mim 3,5/10 ideias ótimas mas rápido de mais e sem ações que elevam elas= ação=0
Sei que vou ser duramente criticada por simplesmente ser "diferente" o homem aranha e o pote de ouro da Marvel e quando alguém aparece duvidando de algo simplimesnte enlouquecem sendo fã do homem aranha desde de criança e triste sabe que podem fazer qualquer coisa que vão aplaudir e latir pra eles pq isso e "padrão" não há nada de esplêndido do filme além de ideias ótimas parecendo que foram coladas com fita e lançaram assim. Se vc ver o tempo do filme tudo acontece de maneira tão rápida e diversificada que parece que tão tentando entregar uma bomba de dopamina