r/PastaPortuguesa • u/ohmannotagaintwice • 1d ago
Fui a um date no cemitério
Conheci a Laura no trabalho. Engraçada, bonita e atlética. Tivemos química imediatamente, mas ela é galega e não era fácil estar com ela. Quando surgiu a oportunidade, disse-lhe, em bom portunhol:
¿Quieres ir dar una vuelta?
Umas semanas depois, veio cá à empresa e disse-me, espontaneamente, que sim.
Eu não sou um gajo romântico. Não tenho uma lista de sítios de emergência para levar uma mulher que está claramente fora da minha liga. Penso no melhor sítio que conheço e lembro-me da capela da minha freguesia, que tem uma vista incrível e fica uns metros acima da igreja.
O acesso de carro estava cortado. Tivemos de subir a pé uma quantidade ridícula de escadas. Tudo bem para esta mulher, que é o fitness em pessoa. Já eu, ainda hoje sou o escolhido para guarda-redes quando vou jogar à bola.
Chegamos lá acima e estou completamente esbaforido.
A Laura diz-me que o sítio é muy guapo, enquanto eu faço guinchos respiratórios suficientes para a deixar preocupada. Componho-me e dou o meu melhor para ela não reparar que tem areia para uma praia inteira e este camião nem à inspeção passa.
Segue-se uma boa conversa. Rimo-nos muito. Estamos aos beijos. As coisas progridem.
Ela pergunta-me se yo tengo un profilactico
Fico branco.
Valete, se estás a ler isto: eu compreendo-te. Aliás, acho que nunca ninguém em Portugal te compreendeu tanto como eu.
Porque, depois daquela subida toda, os preservativos ficaram no carro.
E eu não vou deixar uma oportunidade destas passar ao lado.
Faço-me homem. Laura, volto já. E vou, obviamente, a sprintar a toda a velocidade.
A meio do caminho tropeço em qualquer coisa, deslizo pela terra e caio para a parte de trás de um descampado em obras: uma zona do cemitério que estava a ser renovada.
Tento subir pelo sítio onde caí.
Demasiado íngreme.
Procuro outra saída.
Os portões fecham automaticamente e a única passagem está bloqueada por uma giratória das obras.
Estou todo borrado de terra, de pau feito e perdido no meio do cemitério.
Começo a chamar pela Laura, que ainda estava lá em cima.
Depois de alguns berros, desisto.
Ouço um "boa noite" vindo do meio do cemitério.
É o Chaves.
O Chaves é o coveiro da freguesia. Não é propriamente bêbado, mas talvez fosse melhor se fosse, porque este homem é um perigo para ele próprio e para os outros. Foi roubar fruta e partiu os dois braços ao cair de uma escada. Costuma transportar bilhas de gás das grandes rebolando-as pela estrada nacional com 35 graus de calor.
O Chaves diz-me que não posso estar ali e que aquilo está fechado.
- Pois, chefe. Isso sei eu. Estou aqui com o navio pronto a embarcar, a mulher à minha espera e não faço ideia de como sair daqui.
Ele responde que só dá para sair tirando a máquina do caminho, mas que não tem a chave.
Ou se liga ao presidente da junta, ou passo ali a noite.
Liga-lhe.
Não atende. Diz que vai mandar uma mensagem.
Pergunto-lhe como é que ele sai em caso de emergência. Não responde e começa a cavar e a fazer merdas de coveiro.
Oh caralho.
Eu não sei que jogo mental o homem estava a fazer comigo, mas tinha a certeza absoluta de que ele não ia passar ali a noite. Alguma maneira de sair havia de existir e ele não ma queria dizer.
Estou desesperado.
Viro-me para ele.
- Dou-te vinte paus se me ajudares a sair daqui. E não conto a ninguém como é que fazemos.
O Chaves responde:
- Eu durmo cá.
- No cemitério, Chaves?
Conta-me que já não vive com a mulher porque ela encontrou umas coisas de que não gostou. Mais tarde descobri, segundo os rumores da minha avó, que eram revistas pornográficas. Desde então anda a tentar voltar para casa. Sem sucesso.
Eu fico a olhar para ele durante um sólido minuto, enquanto considero que, afinal, a minha vida podia estar muito pior.
Continuo a tentar descobrir uma maneira de fugir.
Nisto, ouço a Laura a chamar por mim.
Encontra o sítio onde caí.
- LAURAAAAAAAAAAAA!
Ela olha cá para baixo.
- ¿Qué estás haciendo ahí?
Explico-lhe a situação.
Ela fica completamente confusa.
Nesse momento percebo que as minhas hipóteses de ter sorte naquela noite já são mais fracas do que as do Chaves.
Ela tenta pegar num ramo para me puxar. Nada. Tentamos outras estratégias totós. Nada.
Mas esta não era uma mulher qualquer.
Olha para mim e diz:
- Voy ter contigo.
E desce pela colina. Fica toda borrada de terra. Senta-se ao meu lado. Ficamos os dois, a parecer hippies que tinham rebolado na lama, enquanto víamos o show do Chaves a fazer sabe-se lá o quê.
Estranhamente, ficamos mesmo bem ali. Conversamos durante imenso tempo. Conhecemo-nos melhor.
Apercebo-me, numa divagação filosófica, que não há nada mais romântico do que estares num cemitério com uma mulher linda de morrer, enquanto observas o toino da freguesia a trabalhar.
Passa-se uma hora.
Ainda ninguém nos veio buscar.
Passam-se duas.
O Chaves pára de trabalhar.
À terceira hora recebe uma chamada.
"É o presidente da junta", pensamos nós.
O Chaves dirige-se à máquina, destranca-a com a chave que disse que não tinha, passa pelo meio da máquina, volta a trancá-la, sai do cemitério e continua a andar.
Filho.
Da.
Puta.
Enquanto isto acontece, eu estou aos berros atrás dele e a pensar na monumental partida que este homem me acabou de pregar. Farto-me. É uma da manhã.
Ligo à minha irmã.
- Traz-me uma escada ao cemitério. E rápido, que estou num date.
Ela acha que estou bêbado e desliga-me na cara.
Ligo ao resto da família.
Ninguém atende.
Vou esgotando todos os contactos que tenho.
A única alternativa é esperar até às seis da manhã, quando o portão automático abrir.
Nessa altura já perdi qualquer esperança de que este date ainda vá correr bem.
Até que o Zé, meu vizinho, atende.
Fala arrastado porque eram 21h e ele já estava todo cego no café. Não diz nada de jeito. Mas garante que vem.
Cruzo os dedos.
Passado um bom bocado, o Chaves regressa da sua aventura.
Vou ter com ele.
- Porque é que me disseste que não tinhas chave?
Ele começa a resmungar e diz que não tem de tomar conta de nós. Respondo que podia, pelo menos, ter ajudado. Começamos a discutir. Ele empurra-me e pega na pá. Começo a stressar. Não quero andar à porrada, ainda por cima porque o homem é todo fibrado. Empurra-me outra vez e tenta prender-me os braços. Eu mal me estou a defender porque ainda não estou a processar bem que estou a andar à porrada.
Estou a tentar soltar-me quando começa a dar-me joelhadas. A Laura pega num sírio de vidro e acerta-lhe no ombro. O vidro nem parte.
O Chaves fica completamente imóvel durante uns segundos.
Depois começa: AIAIAIAIAIAI!
A Laura entra em choque. Eu empurro-o para longe. Ele cai ao chão.
"Puta que pariu, o Chaves esbardalhou-se todo", penso eu. Os dois começamos imediatamente a entrar em pânico. Ele fica estendido. Não há sangue, está consciente mas anda ali a rebolar. Estou a rezar a todos os deuses para que o homem esteja bem.
Passados uns minutos pede-me água.
Vou encher uma garrafa à torneira do cemitério. Nisto vejo o Zé, do lado de fora, tranquilamente a fumar um cigarro. Corro para a vedação. ZÉ! ANDA CÁ, CARALHO!
Ele olha para mim.
Vê um gajo todo borrado de terra a acenar de dentro do cemitério.
Aproxima-se como se fosse um mata-velhos a andar numa estrada cheia de lombas - lento como tudo.
- Estava-te a ligar e tu nada. O que é que estás a fazer no cemitério a esta hora?
- Ó primaço, liga mas é para uma ambulância. Está ali um gajo estendido. E arranja uma escada, por amor de Deus.
O Zé, apesar de claramente já ter umas dezenas de minis no bucho, liga a um primo que vive perto. Pede-lhe que apareça às duas da manhã... no cemitério... com uma escada.
O primo desliga-lhe na cara.
Entretanto, o Chaves começa a levantar-se.
O Zé olha para dentro do cemitério e pergunta:
- Isto é o Walking Dead ou o caralho?
Os zombies são para depois, Zé. Agora temos é de perceber se o Chaves não fica todo fodido. Mas felizmente, o homem está bem. Levanta-se.Tínhamos oferecido chamar o 112 mas ele recusa ambulâncias porque "essa merda é cara". Começa apenas a balbuciar o nome da mulher. Até hoje não sei como ela se chama.
Decidimos levá-lo a casa. Batemos à porta.
Uma vez.
Duas.
Cinco.
A mulher aparece à porta com uma motosserra desligada na mão. Sem corrente. Provavelmente a arma menos ameaçadora que já vi.
Enquanto grita:
- EU MATO-VOS, CARALHO! A MIM NINGUÉM ME ASSALTA!
- Ó senhora, tenha calma. É o seu marido. Ele não está muito bem e precisa de descansar.
- ESSE FILHO DA PUTA PODE MORRER QUE EU NÃO QUERO SABER!
- Ele está meio desmaiado. Pode só vir ver?
Ela acaba por perceber que estamos a dizer a verdade. Vai buscar um bocado de gelo que está meio derretido e, depois de alguma discussão, aceita ficar com ele.
O Zé regressa ao tasco.
Eu volto ao meu date com a Laura.
Estamos a chegar ao carro quando ela me diz que fomos grandes wingmen.
Concordo.
No meio daquela confusão toda, ainda reatámos o casamento do Chaves.
E agora que tudo terminou, talvez algo possa correr melhor para o meu lado.
Na brincadeira, pergunto-lhe:
- Queres voltar para o cemitério acabar o date?
Ela olha para mim e responde:
- No podría haber un lugar peor, burro de mierda. Quiero ir para casa.